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15.05.2002 - CÂMARA DOS DEPUTADOS

GRANDE EXPEDIENTE

CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ
Hora: 15:25 Fase: GE
Orador: MARCIO FORTES, PSDB-RJ Data: 15/05/2002



O SR. MARCIO FORTES
(PSDB-RJ. Sem revisão do orador.)
        Senhor Presidente,
        Senhoras e Senhores Deputados,

        Neste pronunciamento pretendo olhar para frente, para o futuro, alinhavando tudo aquilo que é possível propor à Nação, passada a fase de radical transformação institucional por que passou nos últimos oito anos. De fato, alinhar o que aconteceu com o Brasil, nesse período, é simples e familiar aos brasileiros. Tão familiar que se incorporou aos usos e costumes de toda a população que, em 1994, vivia aprisionada à inflação, no seu dia-a-dia, como conseqüência da instabilidade política que assolou o Brasil, desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Os efeitos da instabilidade política, em mais de 50 anos da vida nacional, são, sim, a grande causa das dificuldades de vida que teve nossa população. E digo vida para não me limitar à questão econômica. Mesmo aqueles que tinham sua situação financeira equacionada, enfrentavam, nos primeiros anos da década de 90, dificuldades inerentes ao subdesenvolvimento por que passava o País.



        Serviços públicos deteriorados, um sistema educacional sem orientação programática e, portanto sem olhar para o futuro, assistência à saúde pública precária, o sistema financeiro nitidamente em vias de colapso, notável desconfiança internacional, apenas superada pela qualidade individual de alguns homens públicos, desmotivação geral dos servidores públicos, inclusive de alguns setores de extrema gravidade, como o da segurança pública e as Forças Armadas. Enfim, tínhamos um país à beira da catástrofe. Para lembrarmo-nos do que escapamos, basta observar a Argentina de alguns meses para cá. A transformação por que passamos é, sobretudo, institucional. Pela primeira vez, em décadas, a população brasileira vislumbra a estabilidade do sistema político, vislumbra que não há riscos às conquistas democráticas, mesmo em meio a profundas turbulências, como aquelas que aconteceram no mundo, durante a crise financeira russa, a crise do Oriente Médio, em que não se abalaram os processos internos de substituição de governantes, eleições e outras manifestações marcantes do processo democrático.



        Mesmo com as sabidas imperfeições de nosso sistema político, não perdemos o respeito institucional à Câmara dos Deputados, ao Senado Federal e aos Poderes Legislativos do País. Ao afastarmos, e tenho certeza de que em caráter definitivo, os fantasmas da vida institucional brasileira e as incertezas - o Ministro da Fazenda é o mesmo há 7 anos e os exemplos são notáveis - e acostumarmos a população aos ganhos admiráveis da redução radical dos índices inflacionários e a uma vivência do dia-a-dia que permite a organização da vida, podemos agora, às vésperas de mais um exercício da participação popular na política, planejar o nosso futuro.



        O que quer a Nação? O que espera de nós? O que pretende para seu próprio futuro? Como nos vê? Como esperamos que passe a nos enxergar, a nós políticos, afinal de contas aqueles que estamos nos responsabilizando por todos os ganhos que o Brasil teve, nos últimos oito anos? Certamente, a Nação quer desenvolvimento e muito mais moderno do que o desenvolvimento conceituado como tal em décadas passadas, aquele que se limitava à exibição de números da chamada renda per capita ou da explicitação de indicadores de infra-estrutura, como produção industrial por habitante ou produção de energia elétrica por quilômetro quadrado, ou qualquer outro indicador tecnocrático. O desenvolvimento que esperamos supera mesmo os mais recentes conceitos internacionais do desenvolvimento sustentável, que inclui a correta utilização do patrimônio ambiental como o principal indicador de desenvolvimento. Na realidade, os indicadores de desenvolvimento que queremos situam-se além mesmo das taxas de qualidade de vida, listadas pelo chamado Índice de Desenvolvimento Humano - o IDH -, publicado anualmente pelas Nações Unidas.



        Identificar as necessidades de nosso povo é hoje um exercício da maior profundidade. Temos o retrato do Brasil, tão bem caracterizado pelo Censo 2000 do IBGE. Conhecemos a evolução que teve em tantos setores, conhecemos o marcante diferencial entre as várias regiões do País, aqueles que se dedicam à variedade de atividades que envolvem a população, e até as diferenças individuais. Diagnóstico não nos falta. Participação popular, muito menos. Os projetos têm que ser exeqüíveis. Sua transformação em realidade é uma das exigências do nosso tempo. E as maiores exigências não são aquelas que estão no dia-a-dia da população. No dia-a-dia, na questão cidadã, os problemas variam. Passam pela sensação de falta de segurança nos grandes centros urbanos e pela questão da deficiência, ainda que conceituada como em processo de melhoria, dos serviços públicos essenciais. Na questão econômica, há o fantasma do desemprego que assola, mais pelo medo que pela própria presença, a maioria das famílias brasileiras. Na relação dos cidadãos com os serviços públicos há questões permanentes, como o valor das aposentarias, o exercício do direito à educação de boa qualidade por conta do Estado e outras tantas.



        Mas é na participação democrática que se situa o maior exemplo das preocupações nacionais na área institucional. Não que tenhamos medo, nós, brasileiros, da interrupção do processo de participação. Ninguém imagina que possa haver um adiamento das eleições, por exemplo, ou algum tipo de ruptura com o modelo vigente, ou uma radical modificação por instrumentos heterodoxos das nossas posturas constitucionais. É a sensação que todos têm de que não é assim tão legítimo o mandato dos governantes. Menos ainda, o mandato dos representantes desta Casa. Talvez, esta seja a mais importante tarefa a que devamos nos dedicar: restaurar o respeito, pelo aumento da demonstração de legitimidade aos mandatos de que somos detentores. Mesmo os governantes que detêm a responsabilidade dos Poderes Executivos sofrem com o descrédito das suas atividades, suspeitos que são permanentemente de interesses não confessáveis, no exercício de suas, em geral, honestas atividades. Nós, do Poder Legislativo, somos sempre mal considerados, em parte pelo desconhecimento do que fazemos e na maior parte porque o processo político é tão eivado de características antiquadas que nos torna menos considerados pelos nossos eleitores.



        Chamar de reforma política aquilo que precisa ser feito é um pouco repetitivo. Na realidade, devemos respeitar a vontade dos eleitores de forma mais explícita. A fidelidade partidária, por exemplo, outorgaria mais respeito à instituição partidos políticos e ao mandato de cada um de nós, ligando nossa ação parlamentar à vontade daqueles que nos elegeram, através dos programas partidários. As inelegibilidades, as elegibilidades e outros itens constantes da pauta de votações, as próprias características dos pleitos, em que exibições sistemáticas de poder econômico e de poder político entre os vários candidatos, tornam gritante a exigência por financiamento público de campanhas. As anomalias, que fazem com que se ofereçam candidatos de dezenas de partidos, na sua imensa maioria completamente desconhecidos e sem expressão eleitoral própria. Apenas para, cumprindo a lei, ocuparem o tempo de divulgação por rádio e televisão com idéias, em geral, exóticas.



        Nesse quadro de perplexidade, podemos sempre contribuir com idéias. Nossos grandes partidos apresentam-se com magníficos candidatos ao pleito. Para os pleitos majoritários, nomes experimentados, nomes respeitados pela sua experiência, pela sua trajetória, capazes de assessorar-se convenientemente e obter, mesmo dos instrumentos oficiais, dados suficientes para bem governar. Nos Poderes Legislativos sempre se poderá identificar lideranças legítimas, lideranças autênticas e efetivos representantes da vontade de parcelas do eleitorado, entre aqueles que se apresentam. Mas, não é suficiente. A idéia-chave, o planejamento central, é muito distorcido. E a apresentação de idéias não factíveis, criando uma ilusão que conquista votos, é ainda uma prática comum.



        O que precisamos fazer? Analisar como era a Nação, oito anos atrás. Analisar como é a Nação hoje. Propor um modelo de desenvolvimento e modos de fazê-lo, em conjunto, através dos partidos, através da voz dos candidatos, mas sobretudo amparados na respeitabilidade e na viabilidade das propostas. Senão, vejamos. Na área econômica. O que impede o desenvolvimento econômico, como disse há pouco, no seu retrato mais claro, que é a elevação do nível de empregos? Um sistema financeiro, um sistema tributário, um sistema de inserção internacional. Nosso maior problema econômico é a carência de poupança interna, entendida claramente como a soma da compulsória, ou seja, o dinheiro colocado à disposição do setor financeiro, não só cadernetas de poupança, mas todo o sistema de captação de recursos para que saia do consumo e dos colchões das famílias para a utilização pelo sistema produtivo, ou a poupança compulsória, via impostos.



        É conhecida a grande amarração dos orçamentos públicos, a obrigação que, muitas vezes, a duras penas é cumprida pelos governos, de honrar compromissos, muitas vezes estranhos, algumas vezes iníquos, tantas vezes inexplicáveis. É o caso de alguns subsídios. É o caso de alguns incentivos fiscais ou perdões fiscais. É o caso, sobretudo, de grandes parcelas de benefícios previdenciários, obtidos por corporações, grupos e setores, sem a devida cobertura das contribuições que possam dar equilíbrio atuarial ao sistema previdenciário. Sobretudo, aí, residem grandes dificuldades. Hoje, dezenas de bilhões de reais são obrigatórios para a Previdência. Obrigações que têm sido cumpridas religiosamente, meticulosamente, pelo atual Governo e que bem analisadas, algumas delas poderiam até ser questionadas.



        Senhor Presidente.

        Senhoras e Senhores Deputados,



        
        É sabido que há obrigações com o sustento de estados e municípios que não arrecadam o suficiente para o cumprimento de suas próprias obrigações. Além dos fundos que prevê a Constituição, de tão difícil assimilação, muitas vezes, pelo Tesouro Nacional, está sempre pronto o País a oferecer créditos e capacidade de rolagem às unidades federativas, para que não interrompam o cumprimento de suas obrigações. Para tal atividade permanente é valiosa a existência da Lei de Responsabilidade Fiscal, tão bem formulada, tão mal compreendida por tantos e hoje tão aplaudida por quase todos, mesmo por aqueles, como alguns partidos políticos de oposição, que aqui se posicionaram contra sua aprovação na Câmara dos Deputados.



        A carência de poupança interna nos obriga permanentemente a apelar para a poupança do exterior, sob a forma de empréstimos, sob a forma de investimentos diretos e sob a forma de ingresso mediante a aquisição de bens e produtos fabricados no Brasil, via exportação. É passado o tempo da validade das políticas de substituição de importações. Hoje, estamos em plena era da integração competitiva com o resto do mundo, pela qual nos obrigamos a exportar mais e também a resistir, dentro de casa, a importações de produtos, muitas vezes, tecnologicamente mais atualizados. A competitividade de nossa produção industrial e de nossos processos comerciais é, ao mesmo tempo, sacrificada por um sistema tributário que onera a produção, onera o trabalho e pune aqueles que investem, quando deveria ser o contrário.



        São os instrumentos que nos cabe modificar. Um projeto de desenvolvimento para o futuro na área econômica tem que pensar, em primeiro lugar, no sistema financeiro, como fazê-lo funcionar mais na direção do desenvolvimento, do investimento, da premiação da poupança e não tanto no financiamento dos déficits públicos. Um projeto de desenvolvimento econômico necessariamente tem que incluir modificações radicais no sistema tributário, como aquelas que foram estudadas exaustivamente por comissões especializadas nesta Casa e que voltarão, com certeza, no futuro a atuar. Já é um avanço aquilo que se espera que aconteça nos próximos meses, a eliminação total da tributação cumulativa, dos chamados impostos em cascata. Mas é pouco. É pouco porque a carga tributária total é excessiva e, com certeza, onera, sobretudo, a classe média brasileira.



        Marcantes foram os ganhos dos chamados problemas históricos brasileiros. Nos últimos oito anos, foram equacionados o crescimento explosivo da população, que já hoje não assusta a ninguém, e o número de habitantes tende a uma estabilização, daqui a poucas décadas. A vertical redução da taxa de mortalidade infantil, possivelmente o maior ganho de qualidade num setor em que o IDH tem peso especialmente importante, é o resultado de uma correta aplicação de políticas na área da saúde pública, do saneamento e da assistência social bem orientada. A evasão escolar e a repetência foram praticamente eliminadas do dicionário da escola fundamental brasileira, aquela em que mais atua o poder público federal. A aposentadoria, apesar de onerosa financeiramente, é um benefício que foi estendido hoje a muitos mais brasileiros, pela mera prática correta de instrumentos modernos de administração e identificação de direitos para sua outorga, sob a forma de ganhos financeiros.



        A Lei de Responsabilidade Fiscal, que já mencionei, faz com que a arrecadação seja sempre superior aos dispêndios da União, dos estados e dos municípios. Tudo, de certa forma, ligado à redução radical da inflação que, ainda existente, hoje não é alta e nem descontrolada como era. Tudo isso foi feito com a abertura da economia, sem controle de preços e com absoluta liberdade de importação de quase todos os produtos. Na questão ambiental, houve uma enorme redução dos níveis de poluição do ar e da água. Os investimentos em ciência e tecnologia são marcantes por fundos especializados, que utilizam o potencial de nossas empresas estatais e privadas para que as instituições existentes não fiquem o tempo todo, como ficavam, e nos lembramos disso, à míngua e à cata de recursos, em vez de dedicarem-se às suas atividades.



        O acesso da população aos bens de consumo e serviços básicos, como comunicações, energia elétrica, transportes coletivos, passou por notável aumento. A migração interna entrou em processo de controle quase absoluto pelo crescimento da atividade econômica no campo, com o conseqüente aumento da produção e da qualidade de grãos e produtos agrícolas, em geral. A competitividade da indústria, a produtividade agrícola, a lavoura diversificada e o sistema de transportes sofreram radical transformação, com um grande esforço de multimodalidade de alternativas e de privatização, onde coube. A máquina pública foi reduzida.



        Nós superamos alguns graves problemas. Mas precisamos avançar mais. No caso de nossa engenharia de comércio exterior, foi proposta pelo Senador José Serra a criação de um Ministério específico. Nada mais justo. Existem hoje esforços concentrados em diversos Ministérios, mas que não chegaram ainda a empolgar aqueles brasileiros que merecem o título de maiores empreendedores do mundo, os pequenos, os médios e mesmo os empresários tradicionais. Vale fazer um esforço nessa direção, em diversos sub-setores de atividades. Sobretudo, ficamos devendo às próximas gerações o desenvolvimento da questão urbana. Na prática, esta talvez seja a maior dívida que o atual Governo contraiu. Não temos eficácia na questão urbana. Não temos um desenvolvimento urbano que seja adequado. A responsabilidade pelas iniciativas públicas na área da questão urbana divide-se em diversas Agências e Ministérios, criando não só confusão administrativa, mas ineficácia crônica.



        Algumas questões institucionais também permanecem: a imagem da corrupção, por exemplo. Existe ainda uma certa precariedade nos aplicativos e instrumentos da outorga de uma Justiça mais eficiente e mais disseminada por toda a população. A segurança pública é outra questão. Propôs o Senador José Serra a criação do Ministério da Segurança Pública para que as atividades típicas da área não se misturem com a grande pauta a cargo hoje do Ministério da Justiça.



        Enfim, muito há a fazer. Estamos todos, candidatos à reeleição e os partidos políticos, propondo a discussão, nos próximos meses, das nossas idéias, expondo o que pensamos e, sobretudo, ouvindo o que diz a população. Ao ouvir, vamos colecionar nossas novas informações e nos preparmos, aqui na Câmara dos Deputados, com certeza, para uma nova época de participação. Uma participação muito mais pró-ativa, muito mais moderna, muito mais interessante do que aquela que já aconteceu porque o novo tempo de desenvolvimento não será tão convencional e tão acadêmico como foi em épocas passadas.



        


Muito obrigado.




  




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