29/07/2010 - Um alerta no ar


Um alerta no ar


     Acostumamo-nos no Brasil a popularizar a macroeconomia. Falamos sobre os indicadores, contas externas, metas de inflação, taxas cambiais e câmbio liberalizado como se fossem temas corriqueiros. Assim, habituamo-nos a ter a inflação sob controle e às conquistas paulatinas de mais de uma década, que levaram à libertação da crônica situação do endividamento externo impagável e de outros fenômenos macroeconômicos que predominaram durante muito tempo.
     Por outro lado, o grande ganho macroeconômico do mundo, nas últimas décadas, foi a concepção, a criação, a implementação e o funcionamento do euro. O grande mesmo. Inédito. Parecia impensável. Diversos países passaram a usar a mesma moeda, os mesmos critérios, mantendo sua independência orçamentária e sua identidade de nação. A Europa passou a se comportar como um player global, em função da existência de uma moeda sadia e respeitada.
     No momento, a grande preocupação macroeconômica do mundo, passada a grande crise mundial de 2008, é com a saúde e até com a sobrevivência do euro. O que aconteceu? Algum furo dos bancos centrais? Alguma má administração de taxas de juros? Nada disso. Ocorreu a não observância da questão mais comezinha, que aprendemos em nossas casas: só se pode gastar aquilo que se tem. Ou até, extrapolando um pouco, pode-se gastar aquilo que se tenha como crédito viável.
     A crise da Grécia, e que será seguida por problemas de natureza semelhante em outros países da zona do euro, notadamente Espanha e Portugal, foi ocasionada pelo abuso das despesas públicas. Uma questão que poderia ser administrável por contadores, não por economistas e muitos menos por macro, coloca agora em risco o grande ganho macroeconômico do mundo.
     Infelizmente, o Brasil está no mau caminho quando descuida de suas finanças públicas, abusa das despesas e imagina que as receitas seguirão em nome de um crescimento futuro. Ora, se a grande ferramenta para o desenvolvimento brasileiro é o ingresso de capitais externos, se nossa bolsa de valores e nossos investimentos dependem de decisões tomadas fora daqui, no Hemisfério Norte, a questão macroeconômica mundial vai nos afetar. Aliás, já está afetando. As perdas de rentabilidade de nossos mercados de capitais e o adiamento de importantes projetos de inversão direta são o primeiro sinal de preocupação.
     Na contramão, a administração pública brasileira aparentemente não conversa com o Banco Central. Aumenta despesas, incorpora benefícios funcionais, abusa dos gastos da Previdência Social, perdoa dívidas de vários países, empresta ao exterior, capitaliza investimentos eventualmente adiáveis dentro do Brasil e fornece crédito aos que não seriam merecedores de confiança por padrões convencionais.
     Nesse quadro, nada estaria bem, mas a queda de investimentos externos casada com o aumento dos dispêndios públicos pode ser explosiva. E até fatal se abalar os fundamentos macroeconômicos, ou seja, se a taxa de juros e a questão cambial forem fortemente afetadas, e as metas de inflação não aguentarem a pressão.
     Os primeiros cortes anunciados no Orçamento da União são um sinal de responsabilidade. Mas, são tímidos face à dimensão da economia brasileira, às obrigações já contraídas e, sobretudo, às aspirações de conquista da nação, particularmente, em ano eleitoral.






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